
Foi com um simpático “murwee ni murettele” [bem-vinda] que Celina Carangueza nos recebeu nos seus aposentos, em resposta ao nosso respeitoso “hoti” [com licença] quando chegamos à porta do seu quintal, e ela sentada a fazer o que uma mulher emakwa de gema mais gosta e sabe executar: reforçar permanentemente a sua beleza natural, retardar as rugas da idade e torná-la infalível sedutora.
O mussiro é a “magia” usada para tal desígnio e esta engenharia é comum em muitos pontos de Nampula, com maior predominância para as zonas costeiras, tais como Ilha de Moçambique, Nacala, Moma e Angoche, mas nos dias eu correm a “febre” se espalhou praticamente por todo o Moçambique.
Natural de Moma, há um bom par de anos que Celina Carangueza reside na “capital do Norte”, como também é conhecida a cidade de Nampula e encontramo-la empenhada a aplicar a pasta do caule de mussiro, depois de moído sobre uma pedra esculpida pela erosão de séculos de monção e outros ventos, adicionada a um pouco de água, com aquela mestria que reside nas moçambicanas em geral e nas macuas ou emakwas em particular e que resulta num produto denominado muthiana orera [mulher linda] que, como um dia alguém cantou, quando se faz à rua até o trânsito entra no caos e o agente regulador se esquece de passar a multa…
Sempre com um sorriso sedutor, Celina desliza, suavemente, ora para cima, ora para baixo, meio a esquerda e meio a direita, os dedos da mão direita pela face, pincelando mussiro, com um pedaço de espelho em riste na mão esquerda, espantando qualquer eventualidade de ruga e deixando a face mais macia.
“O mussiro é um creme natural, que deixa a pele macia, limpa e remove as manchas no corpo segundo a nossa tradição. Obrigatoriamente se aplica aos que vão aos ritos de iniciação. As donzelas e os rapazes são aprimorados com esta pasta natural no fim desta jornada tradicional que inclui sessões de aconselhamentos múltiplos”, explica, com alguma vaidade, a nossa anfitriã, vincado que nos dias festivos, como é o caso de sete de Abril, 22 de Agosto [dia da cidade de Nampula] e nos convívios de xitique [esquema informal de poupança colectiva e rotativa], sem decreto algum é proibido se fazer sem antes se caprichar com este creme mágico.
A angocheana Agira Chalé é outra entrevistada da revista Prestígio, cultora exímia da tradição emakwa que se desdobra em apelos para que esta prática não se perca.
“As mulheres devem parar de usar cosméticos clareadores, optem por mussiro, porque o mussiro limpa as manchas e deixa a pele com um brilho natural, sem causar danos colaterais”, defende Agira Chalé.
Este produto é igualmente incontornável para a maioria das mulheres do Norte de Moçambique em casamentos, tanto para a mulher assim como o homem, os padrinhos do noivo, pintam o homem e as mamanas, ornamentam com mussiro a noiva por volta de todo o corpo, isto para limpar a pele e ficar com pele lisa, por volta desta pratica, a mulher revê o seu noivo diferente, igualmente o noivo para com a sua mulher.
Reza a história que a utilização do mussiro remonta do século X, principalmente nos distritos costeiros do país, por influência dos mercadores árabes. Localmente conhecido como N’siro – cientificamente denominado Olax dissitiflora e membro da família botânica Olacaceae –, este produto preserva na sua composição importantes elementos naturais, provenientes de uma planta que deve ser preservada e multiplicada. Regra geral, é usado pelas comunidades do Norte de Moçambique e do Sudeste da Tanzânia para curar enfermidades, bem como para decorar e hidratar o corpo.
©ELINA ECIATE