Entre 18 e 21 de Junho de 2026, fiéis da Igreja Anglicana de Moçambique voltaram a Marondera, no Zimbabwe, para a quadragésima peregrinação moçambicana em honra de São Bernardo Mzeki, numa celebração que coincidiu com os 130 anos do seu martírio, ocorrido em 18 de Junho de 1896.
Mais do que uma viagem devocional, a romagem reafirmou um circuito singular de turismo religioso na África Austral, onde a fé, memória, história e travessia de fronteiras se unem num mesmo itinerário espiritual.
Para os peregrinos moçambicanos, Marondera — a antiga Marandellas — não é apenas o lugar da morte de um mártir. É o ponto de chegada de uma história que começa em Gwambene, perto da vila de Inharrime, na província de Inhambane, passa por The Lagoa Bay, mais tarde Lourenço Marques, hoje Maputo, desce até Cidade do Cabo, sobe a Salisbury, actual Harare e culmina nas colinas frias de Mashonaland, onde Bernardo entregou a vida ao serviço do Evangelho.

A biografia de Bernardo Mzeki, nascido por volta de 1860 ou 1861 com o nome Mamiyeri Mizeka Gwambe, conserva a força das grandes narrativas africanas de mobilidade, aprendizagem e vocação.
Mamiyeri Mizeka Gwambe teve uma juventude semelhante à de muitos rapazes da sua geração, marcada pelo mundo rural do Sul de Moçambique e pela procura de melhores condições de vida.
Segundo a tradição anglicana, saiu da sua terra ainda jovem, rumou à cidade de Inhambane, onde apanha barco até Lourenço Marques, etapa costeira de uma longa deslocação que, mais tarde, a cavalo, o levaria ao Cabo, na África do Sul.

Não obstante companhias “estranhas”, na Cidade do Cabo, a vida de Mamiyeri Mizeka Gwambe tomou um rumo decisivo. Trabalhava de dia, primeiro em ocupações humildes, e estudava à noite numa escola anglicana dirigida por padres da Society of Saint John the Evangelist, os chamados Cowley Fathers. Ali aprendeu a ler e a escrever, aprofundou a disciplina pessoal, recebeu formação cristã e foi baptizado em Março de 1886, passando a ser conhecido como Bernard/Bernardo.
As fontes anglicanas destacam ainda a sua extraordinária capacidade linguística: dominou inglês, francês, neerlandês e várias línguas africanas, habilidade que o transformaria num mediador raro entre povos, culturas e tradições.
É neste ponto que surge a figura de Dom George Wyndham Hamilton Knight-Bruce, o bispo anglicano que procurava estabelecer a missão em Mashonaland, na então Rodésia do Sul, hoje Zimbabwe.
Knight-Bruce entendeu que a evangelização não poderia avançar apenas por mãos europeias e viu em Bernardo um colaborador africano de excepção, capaz de traduzir não só palavras, mas também sensibilidades religiosas e códigos culturais.

A viagem dos dois até a região de Salisbury e, depois, para a área de Mangwende, abriu um novo capítulo na história anglicana da África Austral, no qual um jovem moçambicano passaria de migrante laboral a catequista, tradutor e construtor de pontes entre nações.
Instalado perto de Marandellas, no território do chefe Mangwende, Bernardo aprendeu shona com rapidez e colocou seus talentos ao serviço da Igreja local.
Traduziu partes essenciais do Livro de Oração Comum — como a oração da manhã, a oração da tarde, a eucaristia e o catecismo — tornando a liturgia anglicana mais próxima das populações que escutavam a nova mensagem cristã em sua própria língua.
O seu trabalho pastoral, porém, foi mais do que linguístico: Bernardo abriu escola, ensinou catequese, cultivou amizades e conquistou a confiança de muitas famílias, especialmente por sua dedicação às crianças.
Foi nesse ambiente que entrou na sua vida Lily Mutwa ou Lily Muthwa. Convertida ao cristianismo no contexto da missão, ela tornou-se companheira de Bernardo e casou-se com ele em 7 de Março de 1896, precisamente no décimo aniversário do seu batismo.

A efémera união entre ambos possui hoje forte significado espiritual para os peregrinos, porque associa o testemunho missionário à dimensão humana do afecto, da família e da esperança. Ao recordar Bernardo, os fiéis recordam também Lily, não como figura secundária, mas como presença decisiva nas horas finais do mártir e como elo vivo entre o amor conjugal e a fidelidade religiosa.
A morte de Bernardo, em 18 de Junho de 1896, continua envolta numa solenidade que combina história e devoção.
Num contexto de tensão local, em que lideranças tradicionais se opunham ao crescimento da comunidade cristã, Bernardo foi mortalmente ferido por uma lança junto à sua habitação. As narrativas eclesiais relatam que, antes de morrer, ainda confiou a Lily uma última mensagem: pediu que ela prosseguisse a caminhada de fé, procurasse assistência sacerdotal e recebesse o batismo, assim como o filho que esperava. Depois, segundo a tradição, uma luz intensa envolveu o lugar onde agonizava, e o seu corpo jamais voltou a ser encontrado.
É precisamente essa ausência física, paradoxalmente, que ajudou a transformar Marondera num dos grandes santuários cristãos da região.
Acompanhados pela reportagem da revista Prestígio, em 2026, ao celebrar quarenta anos dessa presença contínua, os anglicanos de Moçambique voltaram a inscrever o seu nome numa geografia afectiva que une o país de nascimento do santo, a África do Sul da sua conversão e o Zimbabwe da sua missão e martírio.
Do ponto de vista do turismo religioso, essa peregrinação tem um significado especial para Moçambique. Ela mostra como um itinerário espiritual pode também ser uma rota de memória histórica, intercâmbio cultural e integração regional, mobilizando famílias, corais, clero, juventude e visitantes em torno de uma figura africana cujo testemunho continua a atravessar fronteiras.

Mzeki vive nos três países onde deixou marcas concretas — Moçambique, África do Sul e Zimbabwe — e, para muitos crentes, a sua história construiu pontes não apenas entre territórios, mas entre a terra e o céu.
A peregrinação deste 2026 ao santuário de Bernard Mzeki, confirmou mais uma vez Marondera como destino maior da espiritualidade anglicana austral. É essa soma de lugares, afectos e símbolos que faz da peregrinação não um simples deslocamento, mas uma festa de identidade, reencontro e alegria cristã, digna de figurar entre as mais inspiradoras experiências de turismo religioso da região.
©REFINALDO CHILENGUE (Texto)
©ZEFANIAS UAMUSSE e ©REFINALDOCHILENGUE (fotos)
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